30 abril 2007

As maias


Na noite de 30 de Abril para 1 de Maio, manda a tradição, aqui no Porto e no norte de Portugal em geral, que se coloquem ramos de giestas floridas (maias) nas portas e janelas das habitações. «É por causa das bruxas», «é para que o diabo não entre em casa», «é contra o mau olhado», diz o povo. «É por causa do carrapato», também se diz, dando o significado de diabo à palavra carrapato.

A lenda que por cá se conta a respeito desta tradição diz o seguinte:

«Herodes soube que a Sagrada Família na fuga para o Egipto pernoitaria numa certa aldeia. E estava já disposto a mandar matar todas as crianças do sexo masculino. Perante tal morticínio, um outro Judas, informa-o de que tal não valeria a pena. Também, não lhe dizia onde estava o Menino Jesus, mas colocaria um ramo de giesta florida na casa onde ele pernoitasse. Assim, bastaria à soldadesca procurar a tal casa e, pronto!...

Porém, qual não foi o espanto dos legionários quando, na manhã seguinte, todas as casas da aldeia apareceram com o tal raminho de giesta florida!...»

(Trecho recolhido nesta página da Região de Turismo do Alto Minho).

Vale a pena ler o que sobre esta tradição se diz nesta página da Câmara Municipal de Mirandela, com base nos escritos do grande etnógrafo Ernesto Veiga de Oliveira.

29 abril 2007

Dia Mundial da Dança

28 abril 2007

Morreu Mstislav Rostropovitch


Mstislav Rostropovitch retratado por Salvador Dalí

Morreu um músico extraordinário e um amante da liberdade: o violoncelista e maestro russo Mstislav Rostropovitch, Slava para os amigos. Aqui na Terra, a música ficou mais pobre, é verdade, mas continuam connosco outros grandes violoncelistas, de entre os quais me permito destacar o igualmente extraordinário Yo-Yo Ma.

Tive uma enorme dificuldade em encontrar, na Internet, gravações em áudio de andamentos completos interpretados por Rostropovitch. Em contrapartida, encontrei vários vídeos nestas condições. Assim, permito-me destacar o seguinte, em que Mstislav Rostropovitch interpreta o 1º andamento (Moderato) do Concerto para Violoncelo e Orquestra em Dó Maior, de Joseph Haydn. Não sei qual é a orquestra, mas o maestro parece-me ser Seiji Ozawa.



Como homem amante da liberdade que era, Mstislav Rostopovitch fez questão em tocar Bach junto ao Muro de Berlim em 1989, enquanto o Muro era derrubado. Vejam-se a seguir algumas cenas deste acontecimento histórico, em que Slava quis estar presente.

26 abril 2007

Há 70 anos, Gernika


Guernica, óleo sobre tela de Pablo Picasso, que recorda o criminoso bombardeamento da cidade pelos nazis em 26 de Abril de 1937

25 abril 2007

Revolução dos Cravos



LETRA PARA UM HINO

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

Manuel Alegre



Lisboa, 25 de Abril de 1974. Na Rua do Arsenal, as tropas da Escola Prática de Cavalaria, comandadas pelo capitão Salgueiro Maia, detêm o avanço dos tanques do Regimento de Cavalaria 7, que ainda é fiel à ditadura. No momento retratado pela imagem, os soldados do RC7 desobedecem às ordens de disparar.

Mais tarde, o mesmo capitão Salgueiro Maia monta com as suas tropas um cerco ao quartel da GNR no Largo do Carmo, onde Marcelo Caetano se tinha refugiado. Do que no Largo do Carmo se passa, dá-nos conta a reportagem seguinte, que tivemos a oportunidade de ver nessa mesma noite na RTP, já sem censura.




TANTO MAR (1ª versão, de 1975, vetada pela censura no Brasil, ouvida em Portugal)

Sei que estás em festa, pá
Fico contente
E enquanto estou ausente
Guarda um cravo para mim

Eu queria estar na festa, pá
Com a tua gente
E colher pessoalmente
Uma flor do teu jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Lá faz primavera, pá
Cá estou doente
Manda urgentemente
Algum cheirinho de alecrim


TANTO MAR (2ª versão, de 1978)

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Já murcharam tua festa, pá
Mas certamente
Esqueceram uma semente
Nalgum canto do jardim

Sei que há léguas a nos separar
Tanto mar, tanto mar
Sei também quanto é preciso, pá
Navegar, navegar

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Chico Buarque de Holanda

24 abril 2007

No tempo da ditadura


(Imagem retirada do blog História e Ciência)


ESTADO VELHO

Ah! Não há dúvida
Vocês existem, vocês persistem

Vocês existem com grémios e tribunais
Medidas de segurança e capitais
Plenários mercenários festivais
Grades torturas verbenas
Cativeiros de longas penas
Com vista para o mar
Para matar

Palhaço
Lacrimogénio
Capacete de aço

Vocês existem bordados a ponto de cruz
Fazendo a guerra sugando o povo
Sorvendo a luz com Estoris, cocktails, recepções
Canastas e rallies
Whisky, cocktails, cherries
Trapeiras, esconsos, saguões
Discursos, salmão, lagostas
Pão duro, desespero e crostas
Sorrisos de hospedeiras
E assassínios de ceifeiras

Palhaço
Lacrimogénio
Capacete de aço

Vocês existem, baionetas e chá com bolos
Cooperativas, clubes de mães
Concursos de gatos e cães
Cães de luxo para lamber
Cães polícias - polícias cães
Para morder
Barracas de lata para viver
Salários de fome para sofrer
Trapos, suor e lodo
Amáveis conversas de casaca
E sobre as nossas cabeças
A matraca

Palhaço
Lacrimogénio
Capacete de aço

Ah! Não há dúvida
Vocês continuam a existir
Até ao raio que vos há-de partir

José Carlos Ary dos Santos


QUEIXA DAS ALMAS JOVENS CENSURADAS

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras dos avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que não o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
sonhos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espete os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

Natália Correia

22 abril 2007

Dia da Terra



CARTA DO CHEFE ÍNDIO SEATTLE

Seattle foi um chefe dos Suquamish e outras tribos índias norte-americanas, cujo nome foi dado à cidade de Seattle, no estado de Washington. Em 1854, ele escreveu uma carta ao presidente dos Estados Unidos, Franklin Pierce, em resposta a uma proposta de aquisição de terras no valor de 150 mil dólares. Esta carta é considerada um dos mais belos documentos até hoje escritos a respeito da defesa do meio ambiente.

LER A CARTA DO CHEFE SEATTLE


O Grande Chefe de Washington comunicou-nos o seu desejo de comprar as nossas terras. O Grande Chefe assegurou-nos também da sua amizade e de quanto nos preza. Isso é muito generoso da sua parte, pois sabemos que ele não necessita da nossa amizade.

Porém, vamos considerar a sua oferta, pois sabemos que se o não fizermos, o homem branco virá com armas e tomará as nossas terras.

Mas, como pode comprar ou vender o céu e o calor da terra? Tal ideia é estranha para nós. Se não somos os proprietários da pureza do ar ou do resplendor da água, como pode comprá-los a nós?

Cada torrão desta terra é sagrado para meu povo. Cada folha reluzente de pinheiro, cada praia arenosa, cada clareira e cada zumbido de insecto são sagrados nas tradições e na memória do meu povo. A seiva que corre nas árvores transporta consigo as recordações do homem de pele vermelha. O homem branco esquece a sua terra natal quando, depois de morto, vai vaguear por entre as estrelas. Os nossos mortos nunca esquecem a beleza desta terra, pois ela é a mãe do homem de pele vermelha. Somos parte destas terras como elas fazem parte de nós.

As flores perfumadas são nossas irmãs; o veado, o cavalo, a grande águia - são nossos irmãos. As cristas rochosas, as seivas das pradarias, o calor que emana do corpo de um pónei e o próprio homem, todos pertencem à mesma família.

Assim, quando o Grande Chefe de Washington manda dizer que deseja comprar a nossa terra, ele exige muito de nós. O Grande Chefe manda dizer que nos reservará um lugar em que possamos viver confortavelmente e que será para nós como um pai e que nós seremos seus filhos. Vamos considerar a sua oferta de comprar a nossa terra, embora isso não seja fácil, pois esta terra é sagrada para nós.

A água cintilante dos rios e dos regatos não é apenas água, é o sangue dos nossos antepassados. Se vendermos a nossa terra, terás de te lembrar que ela é sagrada e deverás ensiná-lo aos teus filhos e fazer-lhes saber que cada reflexo na água límpida dos lagos fala do passado e das recordações do meu povo. O murmúrio das águas é a voz do pai de meu pai. Os rios são nossos irmãos, matam-nos a sede, transportam-nos nas canoas e alimentam os nossos filhos. Se vendermos a nossa terra, terás de te lembrar e ensinar aos teus filhos que os rios são nossos e vossos irmãos, e terás de dispensar-lhes a bondade que darias a um irmão.

Nós sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um pedaço de terra vale o mesmo que outro, porque ele é um forasteiro que chega pela calada da noite e tira da terra tudo o que necessita. A terra não é sua irmã, mas sua inimiga, e depois de a conquistar prossegue o seu caminho. Deixa para trás as sepulturas dos seus antepassados e isso não o importa. Apodera-se das terras dos seus filhos e isso não o inquieta. Ele considera a terra, sua mãe, e o céu, seu irmão, como objectos que podem ser comprados, saqueados ou vendidos como ovelhas ou missangas cintilantes. Na sua voracidade arruinará a terra e deixará atrás de si apenas um deserto.

Não sei. Os nossos caminhos diferem dos vossos. As vossas cidades ferem os olhos do homem de pele vermelha. Não há lugares calmos nas cidades do homem branco. Não há sítios onde se possa ouvir as folhas a desabrochar na Primavera ou o zunir das asas dos insectos. O barulho que tudo domina ofende os ouvidos do homem de pele vermelha. Para que serve a vida se um homem não pode escutar o grito solitário do noitibó ou a lengalenga nocturna das rãs à volta de um pântan? Sou um homem de pele vermelha e não compreendo, talvez porque os homens de pele vermelha sejam selvagens e ignorantes. O índio prefere o suave sussurro do vento roçando a superfície de uma lagoa e o perfume do ar lavado pela chuva do meio-dia ou carregado do aroma dos pinheiros.

O ar é precioso para o homem de pele vermelha, porque todas as criaturas partilham a mesma aragem: os animais, as árvores, o homem, todos respiram o mesmo ar. O homem branco parece indiferente ao ar que respira. Como um moribundo em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido. Mas se vendermos as nossas terras, deverás recordar que o ar é precioso para nós, que o ar reparte o seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu o primeiro sopro de vida ao nosso antepassado recebe também o nosso último suspiro. Se vendermos as nossas terras, deverás conservá-la como um lugar reservado e sagrado, onde o próprio homem branco possa saborear o vento perfumado pelas flores da pradaria.

Assim pois, vamos considerar a oferta para comprar a nossa terra. Se decidirmos aceitar, será com uma condição: o homem branco deverá tratar os animais desta terra como se fossem seus irmãos. Sou um selvagem e não compreendo outros costumes. Eu vi milhares de búfalos a apodrecer na pradaria, abandonados pelo homem branco que os abatia de um comboio em movimento. Eu sou um selvagem que não compreende que o cavalo de ferro fumegante possa ser mais importante do que o búfalo, que nós, os índios, matamos apenas para o sustento de nossa vida.

O que seria do homem sem os animais? Se todos os animais desaparecessem, o homem morreria de uma grande solidão de espírito. Porque tudo quanto acontece aos animais não tarda a acontecer ao homem. Todas as coisas estão relacionadas entre si.

Deverão ensinar aos vossos filhos que o chão debaixo dos seus pés é feito das cinzas dos nossos antepassados. Ensinem aos vossos filhos o que temos ensinado aos nossos: que a terra é nossa mãe. Tudo quanto fere a terra fere os filhos da terra. Se os homens cospem no chão é sobre eles próprios que cospem.

Uma coisa sabemos: a terra não pertence ao homem, é o homem que pertence à terra. Disto temos a certeza. Todas as coisas estão interligadas, como o sangue que une uma família. Tudo está relacionado entre si.

Tudo o que acontece à terra acontece aos filhos da terra. Não foi o homem quem teceu a teia da vida, ele não passa de um fio da teia. Tudo que ele fizer à trama, a si próprio fará.

Mas nós vamos considerar a vossa oferta e ir para a reserva que destinais ao meu povo. Viveremos aparte e em paz. Que nos importa o lugar onde passaremos o resto dos nossos dias? Já não serão muitos. Ainda algumas horas, alguns invernos e não restará qualquer dos filhos das grandes tribos que viveram outrora nestas terras, ou que vagueiam ainda nas florestas. Nenhum estará cá para chorar as sepulturas de um povo tão poderoso e tão cheio de esperança como o nosso. Mas porquê chorar o fim do meu povo? As tribos são constituídas por homens e nada mais. E os homens vão e vêm como as vagas do mar.

Nem o próprio homem branco pode escapar ao destino comum. Apesar de tudo talvez sejamos irmãos, veremos. Mas nós sabemos uma coisa, que o homem branco talvez venha a descobrir um dia: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele é o Deus dos homens e a Sua misericórdia é a mesma para o homem de pele vermelha e para o homem branco. A terra é preciosa aos olhos de Deus e quem ofende a terra cobre o seu Criador de desprezo. O homem branco perecerá também e, quem sabe, antes de outras tribos. Continuem a macular o vosso leito e irão sufocar nos vossos desperdícios.

Mas na vossa perdição brilhareis em chamas ofuscantes acendidas pelo poder de Deus que vos conduziu e que, por desígnios só por Ele conhecidos, vos deu poder sobre estas terras e sobre o homem de pele vermelha. Este destino é para nós um mistério. Não o compreendemos quando os búfalos são massacrados, os cavalos selvagens subjugados, os recantos secretos das florestas ficam impregnados do odor de muitos homens e as colinas desfiguradas pelos fios falantes. Onde está a floresta virgem? Desapareceu. Onde está a águia? Morreu. Qual o significado de abandonar os póneis e a caça? É parar de viver e começar a vegetar.

É nestas condições que vamos considerar a oferta da compra das nossas terras. E se aceitarmos, será apenas para ficarmos seguros de recebermos a reserva que nos prometeram. Talvez aí possamos acabar os nossos dias e quando o último homem de pele vermelha tiver desaparecido desta terra, e a sua recordação não for mais do que a sombra de uma nuvem deslizando na pradaria, estes lugares e estas florestas abrigarão ainda os espíritos do meu povo. Assim, se vendermos as nossas terras, amai-as como as temos amado e cuidai delas como nós cuidámos. E com toda a vossa força e o vosso poder conservai-a para os vossos filhos e amai-a como Deus nos ama a todos.

Sabemos uma coisa: o nosso Deus é o mesmo Deus. Ele ama esta terra. O próprio homem branco não pode fugir ao mesmo destino. Talvez sejamos irmãos, veremos.

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17 abril 2007

Um pano da Austrália


Aqui se encontra fotografado um pano da Austrália estampado com um desenho pontilhado, em conformidade com a tradição artística dos aborígenes australianos.

Encontrei esta imagem na Web há três ou quatro anos e não tomei nota da sua origem, porque não suspeitava sequer de que um dia viria a publicá-la num blog.

14 abril 2007

Magaíça

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios,
tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
dos sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando…
oh nhanisse, voltou!
E com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
é um ser deslocado,
embrulhado em ridículo.

Às costas – ah, onde te ficou a trouxa dos sonhos, magaíça –
trazes as malas cheias do falso brilho
dos restos da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
Magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...

A mocidade e saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer city.

Noémia de Sousa (1926-2002), poetisa moçambicana


Magaíça - mineiro moçambicano regressado da África do Sul
Mamparra - pessoa rústica




Mineiros escavando uma galeria numa mina de ouro da África do Sul (Foto de 1935 retirada daqui)

10 abril 2007

Os avieiros


Barco tradicional dos avieiros (Foto: Rui Pedro)


Confesso que nunca li o romance "Avieiros", de Alves Redol. Talvez devesse tê-lo feito antes de me aventurar a escrever algumas linhas sobre os avieiros. Peço desculpa, mas vou cometer esse atrevimento. Aqui vai.

Como na costa portuguesa o mar se apresenta habitualmente alteroso durante o Inverno, até há muito poucas dezenas de anos os pescadores passavam verdadeira fome durante essa época, por estarem impossibilitados de pescar. E quando digo que eles passavam fome, quero dizer que eles passavam mesmo fome, no mais cruel sentido da palavra. Fome pura e dura.

A fim de fugirem a esta situação aflitiva, a partir dos primeiros anos do séc. XX pescadores da Praia da Vieira, que fica junto à foz do Rio Lis, no concelho de Leiria, começaram a ir no Inverno para o Rio Tejo pescar o sável e outras espécies de água doce. Terminado o Inverno, regressavam à Praia da Vieira, onde voltavam a pescar no mar. Deu-se assim início a uma migração sazonal de pescadores que, por serem oriundos da Praia da Vieira, foram chamados "avieiros" no Ribatejo.

Pouco a pouco, muitos desses pescadores passaram a residir permanentemente na Borda d'Água ribatejana, deixando de regressar à sua praia de origem. Assim nasceram pequenas comunidades de pescadores espalhadas ao longo do curso inferior do Tejo, pelo menos desde a Chamusca até à Póvoa de Santa Iria. Há comunidades de avieiros nas proximidades da Chamusca, de Alpiarça, em Benfica do Ribatejo, na Palhota (uma pequena aldeia habitada praticamente só por avieiros, no concelho do Cartaxo), em Escaroupim (outra aldeia quase só de avieiros, no concelho de Salvaterra de Magos), em Vila Franca de Xira, na Póvoa de Santa Iria, etc.

As povoações que os avieiros construíram junto aos canais e pauis do Tejo eram constituídas por miseráveis casas de madeira erguidas sobre estacas, à semelhança dos palheiros existentes nas praias do litoral. Ainda há alguns restos destas habitações palafíticas em várias pontos do Ribatejo, mas já não em Vila Franca de Xira, por exemplo.

Com efeito, uma comunidade avieira de cerca de vinte famílias, mais ou menos, vivia quase debaixo do tabuleiro da ponte de Vila Franca, em casas de madeira erguidas sobre estacas, estando estas permanentemente mergulhadas nas águas do Tejo. Um passadiço, também de madeira, servia de acesso às precárias habitações. Como é por demais sabido, o Tejo é um rio muito poluído. À sua superfície flutua toda a espécie de imundícies. Empurradas pelo vento, as imundícies acumulavam-se debaixo dos casebres dos avieiros, tornando aquele local verdadeiramente nauseabundo e infecto. Eram arrepiantes as condições de vida daquela gente.

Há alguns anos, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira resolveu pôr fim a tão insalubre bairro, demolindo-o. Os avieiros foram mudados para casas situadas longe do rio, o que naturalmente muito os contrariou. Julgo saber que finalmente a Câmara os alojou em casas propositadamente feitas para eles perto do Tejo. Não sei ao certo onde fica o novo bairro, mas certamente ficará entre a linha do comboio e o rio. Da próxima vez que for a Vila Franca de Xira (não sei quando será), procurarei o novo bairro avieiro da cidade.

Além dos palheiros, também os barcos dos avieiros fazem lembrar a origem marítima daquela gente. Embora sejam incomparavelmente mais pequenos do que os barcos usados na Praia da Vieira, os barcos dos avieiros no Tejo apresentam quase o mesmo formato que aqueles, com a sua proa erguida, como se precisassem de furar as ondas do mar... São uma visão insólita, para quem não está habituado a ver barcos assim num rio, mas os avieiros usam-nos quase como se fossem uma extensão de si próprios. É preciso vê-los a bordo das suas embarcações para se compreender até que ponto homens e barcos podem ser um só.

Uma sugestão a quem possuir cartão de campista: acampar no tranquilo parque de Escaroupim (Salvaterra de Magos) e contactar os avieiros que vivem na aldeia.

08 abril 2007

Exultate, jubilate


Francisco Henriques, Aparecimento de Cristo a Madalena, 1508-13, óleo sobre madeira, Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

Moteto Exsultate, jubilate, K. 165, de Wolfgang Amadeus Mozart, por Elizabeth Parcells

07 abril 2007

Deposição de Cristo no túmulo

06 abril 2007

Sexta-feira da Paixão

05 abril 2007

Semana Santa

Leonardo da Vinci, A Última Ceia, 1495-1498, têmpera sobre gesso, refeitório do convento de Santa Maria delle Grazie, Milão

Señor, ten piedad de nosotros, de Misa Criolla, de Ariel Ramírez, pelo coro da igreja de Spittal an der Drau, Caríntia, Áustria, dirigido por Regina Pleschberger

04 abril 2007

Palheiros

Um palheiro em estado lastimável na cidade de Esmoriz, concelho de Ovar (Foto: Taxonomista)

Dá-se o nome de palheiro a uma casa de madeira tradicional portuguesa que é construída sobre estacas. As estacas tanto podem ser de madeira como podem ser pilares de pedra. Os palheiros mais recentes até já chegaram a ser erguidos sobre pilares de cimento. Apesar do nome, estes palheiros não servem para guardar palha, mas sim para habitação.

Os palheiros foram um tipo de edificação típica da Ria de Aveiro, onde o terreno arenoso e alagadiço não permitia que se construissem casas assentes no solo. As construções palafíticas possibilitavam que as águas da ria pudessem subir, inundando o terreno, sem que atingissem a habitação propriamente dita. Permitiam também que a areia, arrastada pelo vento, passasse livremente por baixo das casas, sem que se acumulasse de encontro às suas paredes.

Os pescadores da região da Ria, sobretudo os que eram oriundos da zona de Ovar (os vareiros e as varinas) e de Ílhavo, ergueram construções deste tipo em muitas praias situadas ao longo da costa continental portuguesa. Nelas habitavam durante alguns meses por ano, tempo durante o qual se entregavam à faina piscatória e vendiam o pescado nas povoações mais próximas.

Alguns destes pescadores deslocados acabaram por ficar a residir permanentemente em algumas destas praias, dando origem a novas povoações. Foi com palheiros habitados por pescadores que nasceram várias localidades costeiras, como Espinho e a Costa de Caparica.

Quando eram apenas habitações temporárias, os palheiros pouco mais eram do que casebres. Mas quando se tornavam habitações permanentes, eles já tomavam o aspecto de casas de madeira bem construídas. Sempre sobre estacas, bem entendido.

Este talvez seja o único palheiro em todo o país que foi restaurado no mais estrito respeito pela traça original (Foto: Taxonomista)

Actualmente, contam-se pelos dedos os palheiros que ainda conservam intactas as suas características originais. Infelizmente, estão quase todos em muito mau estado. Em Esmoriz e nas suas imediações, por exemplo, encontram-se três ou quatro palheiros que ainda apresentam a sua traça de origem. Dois deles ilustram este artigo e é provável que ainda exista mais um ou mesmo dois.

De resto, quase todos os palheiros que existiam ao longo da costa foram sendo deixados ao abandono e à ruína total, excepto alguns que foram progressivamente convertidos em casas de aspecto convencional. Em muitas destas casas, até a madeira original acabou por ser substituída por tijolo e cimento.

Muitos dos palheiros reconvertidos não merecem o mínimo interesse, mas há um caso em que eles acabaram por se tornar verdadeiras atracções turísticas. É o que acontece com os antigos palheiros da Costa Nova (de seu nome completo Costa Nova do Prado), no concelho de Ílhavo, que apresentam riscas pintadas de cores vivas produzindo um belo efeito e de que mostro três exemplares na fotografia reproduzida em baixo.

Antigos palheiros na Costa Nova, concelho de Ílhavo (Foto: Vasco Sequeiros)

01 abril 2007

Erosão costeira

Era assim a arte de xávega em Esmoriz em 1988, quando ainda havia areia na praia (Foto retirada do sítio da Escola Florbela Espanca)

Foram há poucos dias objecto de extensas reportagens, pelos diversos órgãos de comunicação social, os estragos feitos pelo mar na Costa de Caparica, no concelho de Almada. O mar rompeu as precárias defesas existentes junto do parque do Clube de Campismo de Lisboa e houve mesmo quem receasse que uma boa parte da vila fosse inundada pelo mar, o que felizmente não aconteceu.

Foi igualmente objecto de reportagens a possibilidade de que o mar fizesse sérios estragos em Esmoriz, no concelho de Ovar, o que também acabou por não suceder, embora algumas casas tivessem sido atingidas pela água do mar.

Em vista destes e de outros factos relacionados com a erosão costeira, que em Portugal Continental está a atingir níveis verdadeiramente preocupantes, não faltaram vozes alertando para o aquecimento global e para a consequente subida do nível médio do mar.

O aquecimento global parece estar mesmo a ocorrer e, portanto, a subida do nível das águas do mar é uma ameaça real. Mas, para já, esta subida ainda só atingiu níveis irrisórios, que não explicam os avanços que o mar tem feito na costa continental portuguesa.

Estes avanços do mar sobre a costa não acontecem só agora. A fotografia ao lado foi tirada há cerca de cem anos em Espinho (retirei-a do sítio Aveiro e Cultura) e mostra a torre da igreja matriz dramaticamente inclinada, pouco antes de ter sido tragada pelas ondas do mar. Com efeito, entre 1900 e 1910, mais ou menos, o mar fez um impressionante avanço em Espinho, engolindo quarteirões inteiros de casas e a própria igreja da então vila! Podem ser vistas reproduções fiéis de fotografias antigas de Espinho, incluindo imagens dos estragos de há cem anos, nos painéis de azulejos que decoram o interior do Restaurante Cristal (passe a publicidade), que fica na Rua 62, muito perto da linha do comboio.

A cidade de Espinho está agora quase toda bem defendida, com excepção do seu extremo sul, o Bairro da Flecha, que é o bairro dos pescadores, onde a defesa é um tanto mais precária e onde não existe abrigo nem sequer areal para a prática da pesca artesanal. Os responsáveis políticos querem lá saber dos pescadores! O que para eles é importante é a zona turística da cidade e o casino. Os pescadores que se danem...

De Espinho para sul, quase até ao Furadouro, o aspecto do litoral é calamitoso. Na costa de Maceda, para sul da Praia de Cortegaça (que já é mais uma península fortificada do que outra coisa), os pinheiros que seguram as areias das dunas vão tombando um a um para a praia, à medida que o mar vai retirando a areia de baixo das suas raízes. Quantos anos faltarão até que o mar chegue à Base Aérea de Ovar?

No cordão dunar da Ria de Aveiro, a erosão também é um facto assustador. No Algarve, o mesmo se verifica em alguns pontos da sua costa. Enfim, onde quer que a costa seja arenosa, o mar avança ameaçador.

As costas arenosas são, pela sua própria natureza, instáveis. A areia é um material volúvel, que um dia está aqui, no outro dia já não está para logo depois reaparecer mais adiante, e assim sucessivamente. O mar a traz, o mar a leva. O vento a empurra de um lado para o outro, acumulando-a onde houver obstáculos. Não podemos tomar as costas arenosas como coisas perenes, porque não o são.

O problema novo que enfrentamos hoje, e que ainda não existia no tempo das destruições de Espinho, é que há cada vez menos areia para o mar depositar nas nossas praias. Qual areia? A dos rios. Porquê? Por causa das barragens que a retêm, não a deixando ser levada para o mar pela corrente. Além disso, a pouca areia que consegue chegar até ao mar deposita-se logo na embocadura dos rios, onde a fraca corrente destes é travada pela força das marés. As barras dos rios ficam assoreadas, tornando a navegação perigosa ou mesmo impossível.

Antigamente, aqui no Porto, havia quem chamasse às cheias do Rio Douro «o engenheiro da Régua». As cheias eram um «engenheiro» que vinha dos lados do Peso da Régua, com o seu enorme caudal e a sua fortíssima corrente, e arrastava tudo consigo, incluindo a matéria sólida (terra e areia) que lhe dava o característico aspecto barrento de cor dourada. Todo este material era transportado pela corrente do rio muito para dentro do mar, desimpedindo assim a barra do Douro. As cheias eram um «engenheiro» muito eficaz, que permitia manter a barra do Douro aberta à navegação. Agora já não existe nenhum «engenheiro da Régua», porque a areia e a terra não são lançadas no mar, ficando depositadas no fundo das barragens e ao longo das margens do rio. As barragens travam a corrente, fazendo o rio parecer um lago em muita da sua extensão, e a areia deposita-se.

As cheias dos rios não são, por isso, necessariamente um mal, desde que não sejam catastróficas. A riqueza das terras da lezíria do Ribatejo, por exemplo, deve-se ao fertilíssimo nateiro que o Rio Tejo deposita durante as cheias. Neste caso particular, as cheias não são um mal, são antes uma bênção.

Sempre que há cheia no Rio Tejo, a primeira povoação que fica isolada é Reguengo do Alviela, que é uma aldeia situada entre a Golegã e Santarém, junto do local onde o Rio Alviela desagua no Tejo e a 3 ou 4 km da Azinhaga, a terra natal de José Saramago. Sempre que há cheia no Rio Tejo, os jornalistas acorrem à povoação em botes dos bombeiros, ansiosos por colherem histórias dramáticas, de pessoas desesperadas por se verem isoladas pelas águas e implorando socorro. Sempre que há cheia no Rio Tejo, os jornalistas recolhem em Reguengo do Alviela imagens e relatos de pessoas que lhes dizem, com um sorriso nos lábios, que já estão habituadas às cheias e que estas não são tragédia nenhuma, porque estão preparadas para as enfrentar...

Deixemos o Ribatejo e voltemos à costa, para concluir este artigo, que já vai muito longo. É imperioso, agora mais do que nunca, que se tenha muito cuidado com as construções que se façam na costa, pois fica muito mais caro corrigir uma asneira do que evitá-la. A cidade de Esmoriz é um bom exemplo disso, pois a sua "praia" configura um verdadeiro atentado ambiental. É por isso com muita preocupação que vejo os nossos políticos aprovarem urbanizações atrás de urbanizações em zonas costeiras altamente sensíveis, como as que estão previstas para a Costa da Galé, no concelho de Grândola, que é uma costa arenosa também, ou para Água de Madeiros e Pedra do Ouro, na freguesia de Pataias, concelho de Alcobaça, onde vão ser roubados muitos hectares ao Pinhal de Leiria, que o rei D. Dinis mandou plantar para travar o avanço da areia. Em Portugal, o dinheiro continua a ser mais poderoso do que o mar e o vento. Até quando?