29 abril 2011

Gumboot dance

Gumboot dance (Foto: Laura SA)

Gumboot dance (dança de botas de borracha) é uma forma de dança popular que foi criada pelos trabalhadores negros das minas de ouro e de carvão da África do Sul.

Esta manifestação cultural nasceu nos finais do séc. XIX entre os mineiros negros, que estavam proibidos pelos seus patrões de falar enquanto trabalhassem. Usando as suas botas de borracha e inspirando-se nos ritmos das suas culturas tradicionais, os mineiros ultrapassaram a proibição criando uma nova forma de comunicação entre si, batendo com os pés no chão, com as palmas das mãos nos canos das botas e com as mãos umas nas outras. Com o passar do tempo, este meio de comunicação evoluiu até se tornar numa forma original de dançar.


25 abril 2011

Liberdade

Nos meus cadernos escolares
Na minha carteira e nas árvores
Na areia e na neve
Escrevo o teu nome

Em todas as páginas lidas
Em todas as páginas brancas
Pedra sangue papel ou cinza
Escrevo o teu nome

Nas imagens douradas
Nas armas dos guerreiros
Na coroa dos reis
Escrevo o teu nome

Na selva e no deserto
Nos ninhos nas giestas
No eco da minha infância
Escrevo o teu nome

Nas maravilhas noturnas
No pão branco dos dias
Nas estações desposadas
Escrevo o teu nome

Em todos os meus trapos de azul
No charco sol bolorento
No lago de lua viva
Escrevo o teu nome

Nos campos no horizonte
Nas asas dos pássaros
E no moinho das sombras
Escrevo o teu nome

Em cada bafo da aurora
No mar nos navios
Na montanha demente
Escrevo o teu nome

Nas formas cintilantes
Nos sinos das cores
Na verdade física
Escrevo o teu nome

Nos atalhos despertos
Nas estradas abertas
Nas praças que extravasam
Escrevo o teu nome

No candeeiro que se acende
No candeeiro que se apaga
Nas minhas casas reunidas
Escrevo o teu nome

No fruto cortado em dois
Do espelho e do meu quarto
No meu leito concha vazia
Escrevo o teu nome

No meu cão guloso e meigo
Nas suas orelhas erguidas
Na sua pata desajeitada
Escrevo o teu nome

No trampolim da minha porta
Nos objetos familiares
No jorro do fogo abençoado
Escrevo o teu nome

Em toda a carne concedida
Na fronte dos meus amigos
Em cada mão que se estende
Escrevo o teu nome

No vidro das surpresas
Nos lábios aplicados
Bem por cima do silêncio
Escrevo o teu nome

Nas ausências sem desejo
Na nua solidão
Nos degraus da morte
Escrevo o teu nome

Na saúde regressada
No risco deaparecido
Na esperança sem memória
Escrevo o teu nome

E pelo poder duma palavra
Recomeço a minha vida
Nasci para te conhecer
Para te nomear

Liberdade.

Paul Éluard, poeta francês (1895-1952); tradução de Egito Gonçalves (1920-2001)


24 abril 2011

Cristo ressuscitado

Cristo Ressuscitado, de Álvaro Pires de Évora (ativo entre 1411 e 1434), Szépművészeti Múzeum, Budapeste, Hungria





"Kommt, eilet und laufet" (Vinde, apressai-vos e correi), da Oratória da Páscoa BWV 249, de Johann Sebastian Bach (1685-1750), por Mark Padmore (tenor), Peter Kooy (baixo) e o Collegium Vocale Gent, de Ghent, Bélgica, sob a direção de Philippe Herreweghe

23 abril 2011

Cristo deposto da cruz

Cristo Deposto da Cruz, de Cristóvão de Figueiredo (ativo entre 1515 e 1543), Patriarcado de Lisboa





"Louange à l'immortalité de Jésus", 8º andamento do Quarteto para o Fim dos Tempos, de Olivier Messiaen (1908-1992) (obra composta em 1941 num campo de concentração, onde Messiaen se encontrava como prisioneiro de guerra dos alemães), interpretado por Ida Kavafian, em violino, e Peter Serkin, ao piano

22 abril 2011

Eis o Homem

Ecce Homo, de João Gresbante (ativo entre 1640 e 1680), Igreja Matriz de Belas, Sintra





Trecho da cantata Passio Domini Nostri Jesu Christi secundum Joannem, mais conhecida pelo nome abreviado de Passio, do compositor contemporâneo Arvo Pärt, da Estónia

19 abril 2011

Brincadeiras com fios

Menina de Angola brincando (Foto de autor desconhecido)

Este é um tipo de brincadeira que é feito com fios, isto é, com cordas, cordéis, barbantes, etc..

Pega-se num pedaço de fio, atam-se os extremos, de forma a que o fio constitua uma linha fechada, e com os dedos das mãos manipula-se o fio, de modo a que ele tome diversas formas, as formas que a habilidade e a imaginação permitirem criar.

Esta brincadeira existe aqui em Portugal. Uma forma tradicionalmente feita neste país tem o nome de cama de gato. Não sei quantas mais formas haverá na tradição portuguesa, mas é muito provável que haja mais algumas. Haverá ainda crianças ou adultos neste país que saibam fazer estas manipulações? Seria uma grande pena que esta tradição se perdesse.

Como se pode ver na imagem acima, este tipo de brincadeira não existe apenas aqui na Europa. A menina angolana que se vê na imagem usa uma tirinha de pano, como se fosse um fio, para fazer as suas próprias manipulações, tal e qual como fazem (faziam?) as suas congéneres europeias. E tal como estas, parece estar a divertir-se com a brincadeira.

Também na América do Sul, mais concretamente entre os índios do Brasil, existe este tipo de brincadeira. Que surpresa! Na verdade, no vídeo que se segue, podem ver-se índios da tribo Kalapalo, do Alto Xingu, no Mato Grosso, fazendo as suas próprias figuras com fios. E que figuras magníficas ele conseguem fazer!

Conclusão: pessoas de cores diferentes e habitando continentes diferentes -- sejam elas europeias, africanas ou ameríndias -- fazem as mesmas brincadeiras e da mesma maneira. Quem diria? Está visto que fazemos todos parte de uma mesma família, a família humana.




Índios Kalapalo do Brasil

18 abril 2011

Romance do terceiro oficial de finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
-- os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia namorar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!...
-- isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...


Manuel da Fonseca (1911-1993)


O centro histórico de Santiago do Cacém (Foto: HGomes)

15 abril 2011

Elvis sings the blues


Reconsider, baby, por Elvis Presley, 1960

11 abril 2011

Um dos cafés mais bonitos do Mundo

O Café Majestic, no Porto (Foto: Karppanta)

O Café Majestic, situado na Rua de Santa Catarina, aqui no Porto, foi considerado o sexto café mais bonito do Mundo pelo sítio UCityGuides. Fica a fazer companhia à Livraria Lello, também desta cidade, que é considerada a terceira livraria mais bonita do Mundo.

09 abril 2011

Dadrá e Nagar-Aveli

Habitantes de Dadrá e Nagar-Aveli (Foto de autor desconhecido)

Os pequenos territórios de Dadrá e Nagar-Aveli, situados a cerca de 15 km de distância do território de Damão, no subcontinente indiano, foram talvez a parcela mais ignorada de todo o império português, mais ignorada ainda do que o enclave de Oecussi-Ambeno, em Timor.

À semelhança de Macau, Dadrá e Nagar-Aveli não foram conquistados pelos portugueses, mas sim oferecidos. Com efeito, no ano de 1783, os maratas, que governavam aquela parte ocidental da Índia, deram-nos a Portugal, como compensação pelo afundamento de um navio português feito pela sua marinha.

A administração portuguesa de Dadrá e Nagar-Aveli durou até 1954, ano em que Portugal se viu obrigado a retirar, por ação de um movimento independentista local. Como não havia tropas portuguesas nos territórios, mas apenas autoridades administrativas, a presença portuguesa acabou sem que se tivesse disparado um único tiro. Em Dadrá, uma pequena guarnição policial resistiu ao ataque lançado pelo movimento, tendo morrido em combate o sub-chefe Aniceto do Rosário e o guarda António Fernandes.

No fundo, os portugueses nunca souberam muito bem o que haveriam de fazer com Dadrá e Nagar-Aveli. Com Damão, sim, souberam. Damão foi um importantíssimo entreposto marítimo para o comércio português com o interior da Índia. Mas Dadrá e Nagar-Aveli não tinham saída para o mar e eram habitadas apenas por populações rurais pobres.

Mapa de Dadrá e Nagar-Aveli

Desde 1954 e até 1961, ano em que foram formalmente integradas na União Indiana, Dadrá e Nagar-Aveli foram, teoricamente, um estado independente. Em 1961, foi dada aos habitantes dos territórios a possibilidade de escolherem a sua integração num dos dois estados indianos vizinhos, Guzarate (Gujarat) ou Maharashtra, o que eles recusaram. Dadrá e Nagar-Aveli ficaram então a ser um território separado destes dois estados mas, dada a sua pequenez, não receberam eles mesmos o estatuto de Estado. Tornaram-se naquilo a que se chama um Território da União, à semelhança, aliás, do que aconteceu com Damão e Diu, que em conjunto também constituem outro Território da União. Goa, como se sabe, acabou por ser elevada à categoria de Estado.

Os vídeos que se seguem são vídeos de promoção turística de Dadrá e Nagar-Aveli. São, por isso, superficiais e dão realce ao pitoresco e ao exótico. Ainda por cima, estão em inglês. Mas já servem para nos dar uma ideia de como são Dadrá e Nagar-Aveli, territórios na Índia que foram portugueses durante perto de duzentos anos.







02 abril 2011

A guerra colonial na música portuguesa



A FAVOR DA GUERRA

Ou espontaneamente, ou promovidas pela máquina de propaganda do Estado Novo, foram várias as vozes que, através da música, se manifestaram a favor da política colonial do regime, assim como da guerra que este teve que fazer, entre 1961 e 1974, para tentar travar a ascenção das colónias portuguesas à sua legítima independência.

O exemplo mais paradigmático da música que então se fez a favor da guerra foi, sem qualquer sombra de dúvida, o hino "Angola é Nossa", de Duarte Pestana e Santos Braga. Trata-se de um hino guerreiro por excelência, dotado de uma força e de um ímpeto tais, que mesmo nos dias de hoje ele consegue provocar arrepios a quem o ouve. O crescendo inicial das vozes, o enorme belicismo contido nas palavras, o compasso acelerado da marcha e o triunfalismo da música em tom maior dão uma impressão de avanço imparavelmente vitorioso a quem escuta. Este é um hino guerreiro perfeito. Nem os nazis conseguiriam fazer melhor.


Angola é Nossa (música de Duarte F. Pestana e letra de Santos Braga), pelo Coro e Orquestra da FNAT (Federação Nacional para a Alegria no Trabalho), sob a direção de Duarte Pestana


"Angola é Nossa", diz o coro, refletindo a mentalidade colonial, como se Angola fosse um objeto que se possui, e não uma terra com gente dentro; como se os angolanos não contassem para nada, à semelhança dos servos da Europa feudal, que faziam parte integrante da terra, tal como as árvores, os bichos, os rios e as montanhas, sem direitos nem opinião.

Outras músicas:

-- Marcha do Soldado Português, por João Maria Tudela;

-- Na Hora da Despedida, por Ada de Castro;

-- Adeus, Guiné, pelo Conjunto Típico de Armindo Campos.



CONTRA A GUERRA

De entre as vozes que, no campo da música, se manifestaram em Portugal contra a guerra colonial, destacaram-se sobretudo três: as vozes de Adriano Correia de Oliveira, Zeca Afonso e Luís Cília. Os outros cantores de intervenção que se faziam ouvir no tempo da ditadura raramente, ou mesmo nunca, abordaram a temática da guerra.

Ao belicismo de "Angola é Nossa", Zeca Afonso contrapôs, por exemplo, "Menina dos Olhos Tristes", que é um lamento profundamente magoado, que ele mesmo criou para um poema escrito por Reinaldo Ferreira (1922-1959), um poeta português que adotou Moçambique como sua segunda pátria.


Menina dos Olhos Tristes (música de Zeca Afonso, poema de Reinaldo Ferreira), por Zeca Afonso


Outras músicas:

-- Pedro Soldado, por Adriano Correia de Oliveira;

-- O desertor, por Luís Cília.



A EXPERIÊNCIA DA GUERRA

Entre os muitos milhares de portugueses que combateram em Angola, Moçambique e Guiné, houve poetas e cantores, como não podia deixar de ser. Alguns destes poetas e cantores deram testemunho desta sua experiência, uns melhor do que outros. De entre os poetas que escreveram sobre a sua experiência na guerra, avulta acima de qualquer outro Manuel Alegre, que foi mobilizado para o norte de Angola em 1962.

Um dos mais belos e pungentes poemas que Manuel Alegre escreveu foi musicado por Adriano Correia de Oliveira, que também o cantou. Trata-se de "Canção com Lágrimas", em que é evocado um companheiro de Manuel Alegre, que o poeta viu morrer em combate diante dos seus próprios olhos.


Canção com Lágrimas (música de Adriano Correia de Oliveira, poema de Manuel Alegre), por Adriano Correia de Oliveira


Tenho para mim que esta é a mais bela de todas as canções que a respeito da guerra se fizeram. É verdade que não há palavras que consigam descrever o que sente um combatente, quando vê um camarada de armas morrer diante de si, perante a sua mais desesperada impotência. Não há. Manuel Alegre escreveu apenas as palavras possíveis, mas são belísimas, essas palavras. E Adriano Correia de Oliveira conseguiu também compor e cantar uma canção que é, sem dúvida, extraordinariamente tocante.

Outras músicas:

-- Onde o Sol Castiga Mais, por Paco Bandeira;

-- Nambuangongo, meu amor, por Paulo de Carvalho.


Ainda dentro do capítulo relativo à Experiência da Guerra, seria imperdoável não fazer uma referência ao conjunto de fados e canções que ficou conhecido como Cancioneiro do Niassa, o qual já foi objeto de um artigo neste blogue.

O Cancioneiro do Niassa é um documento humano, histórico e sociológico preciosíssimo. Este cancioneiro foi feito pelos combatentes portugueses destacados para o Niassa, no norte de Moçambique, mas o que nele se ouve reflete igualmente de forma rigorosa, com todas as suas matizes e contradições, o que pensavam e o que sentiam os militares portugueses que combateram, não só nesta, mas também em outras frentes da guerra colonial. Para aceder ao conteúdo do Cancioneiro do Niassa, queira dirigir-se a estes endereços:

-- http://guerracolonial.home.sapo.pt (clicar em Canções do Niassa);

-- http://www.joraga.net/cancioneirodoniassa/index.htm (contém gravações originais da época).

01 abril 2011

Ângelo de Sousa (1938-2011)

Escultura em ferro pintado de Ângelo de Sousa, situada em frente do Edifício Burgo (de Eduardo Souto Moura), na Avenida da Boavista, Porto (Foto: oportocool)