20 julho 2017

Diego el Cigala


Eu sei que vou te amar, de António Carlos Jobim e Vinícius de Moraes, por Diego el Cigala

Diego el Cigala, de seu nome próprio Diego Ramón Jiménez Salazar, é um cantor e autor de flamenco, cigano espanhol por nascimento e dominicano por naturalização. Qualquer que seja o género musical que interprete, é sempre flamenco o que ele canta. E como canta! Escutêmo-lo um pouco mais.


Amar y Vivir, por Diego el Cigala

Historia de un Amor, por Diego el Cigala

Soledad, por Diego el Cigala

Te Quiero, Te Quiero, por Diego el Cigala e Rosario Flores (filha de Lola Flores)

14 julho 2017

«O Dia em que Comandei a Companhia»




O texto que hoje pretendo partilhar com os meus visitantes é verdadeiramente arrepiante. É um texto de vida, de morte e, sobretudo, de abnegação para lá do que é possível imaginar. Por isso o partilho e recomendo. Porque os heróis existem.

Não faltam por aí antigos combatentes da Guerra Colonial que arrogantemente se julgam heróis, ou porque fizeram parte desta ou daquela tropa de elite, ou porque arriscaram e sofreram, ou porque fizeram e aconteceram. Tudo isso pode ser verdade, ou não, mas os verdadeiros heróis da Guerra Colonial, os autênticos Heróis com H maiúsculo, foram os cabos auxiliares enfermeiros. Exatamente, os humildes cabos auxiliares enfermeiros, de quem ninguém fala. O que é terrivelmente injusto. Apesar de terem recebido uma preparação escassíssima para as medonhas responsabilidades que deveriam enfrentar nas frentes de combate, os auxiliares enfermeiros ultrapassaram(-se) para lá de tudo o que se possa imaginar. Eles foram enfermeiros, foram médicos, foram psicólogos, foram cirurgiões, foram tudo o que as circunstâncias da guerra exigiram deles, mesmo debaixo das mais atrozes e perigosas condições. Este texto, cuja leitura proponho neste momento, demonstra-o de forma extremamente eloquente. O cabo Costa, que é um dos heróis deste episódio, não foi exceção, foi a regra.

Manuel Correia de Bastos, o autor deste texto, é o associado n.º 1312 da ADFA, Associação dos Deficientes das Forças Armadas. Foi gravemente ferido por uma mina antipessoal, que lhe roubou uma perna, no dia 4 de junho de 1972, em Mueda, Cabo Delgado, norte de Moçambique. Era furriel miliciano da Companhia de Artilharia 3503, do Batalhão de Artilharia 3876, e foi um dos 16 feridos graves que a sua companhia sofreu ao longo de dois anos de comissão militar. Além destes, a mesma companhia sofreu ainda mais 36 feridos, 5 mortos e 1 desaparecido.

Tanto quanto sei, Manuel Correia de Bastos publicou apenas um livro, intitulado "Cacimbados". Não o li, porque não está disponível no mercado, em resultado da falência da editora. Não sei, portanto, se este episódio faz parte do livro ou não. Seja como for, o seu autor disponibilizou-o no jornal Elo da ADFA, assim como no blog da sua companhia, onde também pode ser lido.

Feita uma breve apresentação do seu autor, passo então a indicar os dois links onde o notável texto pode ser lido:

Pág. 12 da edição de outubro de 2008 do jornal Elo, da Associação dos Deficientes das Forças Armadas;

Post de 15 de outubro de 2008 do blog Histórias da CART 3503.

10 julho 2017

Talento


Um joik (tipo de canto tradicional Sami) cantado por Jon Henrik Fjällgren perante as câmaras da televisão sueca, de homenagem ao seu melhor amigo Daniel, que morreu de diabetes

Pode um indígena da Colômbia tornar-se indígena do norte da Escandinávia? Se ele pertencer a um povo indígena de uma parte do mundo, com características genéticas e culturais bem definidas, não pode passar a pertencer a um outro povo indígena de outra parte do mundo, com características genéticas e culturais muito diferentes das suas, ou pode? Será que um índio sul-americano pode tornar-se um Sami, criador de renas nas paisagens geladas da Lapónia e da Península de Kola? Afinal, o que é que define que alguém é indígena de tal ou tal parte do mundo: são os genes, a cor da pele, o formato do nariz, a lisura ou o encrespado dos cabelos, ou é o sentimento, a cultura, a alma?

Jon Henrik Fjällgren é um jovem nascido na Colômbia, no seio de uma comunidade de índios, que foi colocado num orfanato na sequência da morte dos seus progenitores biológicos. Adotado por uma família de nacionalidade sueca, mas pertencente ao povo Sami, Jon Henrik Fjällgren foi levado para a Europa, onde cresceu como se fosse, ele também, um membro do povo Sami. Tornou-se pastor de renas, uma das ocupações tradicionais dos Sami, antigamente chamados Lapões.

Como se tudo isto não bastasse, Jon Henrik Fjällgren tornou-se o rosto e, sobretudo, a voz do povo Sami na Suécia, quando ganhou em 2014 o concurso de talentos chamado Talang Sverige ou, como se chamaria em inglês, Sweden's Got Talent.

08 julho 2017

Máscara Pwo


Máscara Pwo, de um artista anónimo do povo Quioco ou Cokwe, séc. XIX, Angola (Foto:The Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque, Estados Unidos da América)

Conhecida como Pwo (mulher) num passado em que o modelo feminino perfeito era a mulher madura, experiente e sabedora, mas adaptando-se com o tempo aos novos padrões e valores sociais, esta máscara é actualmente designada por Mwana Pwo (jovem mulher ou rapariga). Continua, no entanto, a representar o ancestral feminino que regressa à terra com o poder de validar ou criticar as instituições da sociedade tradicional cokwe.

Efectivamente, entre os Tucokwe, à semelhança do que acontece na grande maioria dos povos de origem bantu, as máscaras constituem objecto de evocação e realização de acções dos antepassados entre os homens, estando o seu surgimento associado a motivações de ordem sócio-religiosa, mais concretamente, ao culto dos ancestrais.

Para este grupo etno-linguístico, há muito fixado na zona nordeste de Angola (mas também nos territórios da Zâmbia e da R. D. Congo), a máscara não se reduz, portanto, a um simples instrumento material e mascarar-se não significa uma mera operação de modificação ou disfarce. O termo mukixi (pl. akixi) com que se designa o mascarado é simultaneamente utilizado para referir o espírito do antepassado representado por cada máscara.

Mas Mwana Pwo é uma máscara viva; integrada na comunidade, faz-se presente em ocasiões especiais para guiar, educar e proteger os seus membros.

Associada às cerimónias rituais de iniciação masculina ou mukanda, onde desempenha um papel preponderante, a única máscara feminina da grande hierarquia das máscaras cokwe, é um dos intermediários entre os jovens iniciados ou tundanji (sing. kandanji) e as suas mães, das quais são separados por longos períodos. Na aldeia, Mwana Pwo apresenta-se dançando no terreiro, para o entretenimento de toda a comunidade que celebra esta passagem.

Depositários da memória colectiva, aqueles mascarados que vivem da profissão de bailarinos, realizam exibições itinerantes pelas povoações vizinhas, ajudando a contar a história do seu povo. Fazendo parte do grupo das máscaras de dança — Akixi a kuhangana —, durante a sua "actuação" Mwana Pwo dá vida às noções espirituais que significa.

O seu rosto, sabiamente talhado por um mestre, dentro dos padrões estéticos da escultura cokwe, é sempre a revisitação de um rosto de mulher por ele eleito dada a beleza dos seus traços. Nesse rosto, o escultor inscreve, em complexas representações, simbolismos e significados ligados à fecundidade, ao género e ao cosmos — no nariz o traço kangongo, sob os olhos as lágrimas ou masoxi, nas faces as marcas circulares lumba, no queixo as tatuagens mipila e na testa o motivo cruciforme que a distingue, ou cingelyengelye.

Dançando de forma peculiar onde devem imperar a contenção e a elegância, executa pequenos movimentos, enfatizados na zona da cintura pelo uso do "cinto" característico da dança ciyandamuyia wa ciyanda. A Mwana Pwo cabe perpetuar as qualidades femininas consideradas pelos Tucokwe; a fertilidade, a beleza, a força da juventude e a delicadeza nas atitudes.

A sua dança — afastada dos modelos convencionais do espectáculo teatral onde a coreografia é pré-estabelecida e as performances são ensaiadas — constitui uma forma de expressão e comunicação em renovação permanente que conjuga elementos infraestruturais da vida social do grupo.

Por oposição, os passos são rigorosamente aprendidos e definidos para esta máscara. Um código privado inclui tudo o que se produz no domínio da improvisação o que, correspondendo a momentos de criatividade pessoal do bailarino, torna esta gestualidade inacessível ou difícil de interpretar por indivíduos de outros grupos culturais. Mas as mulheres cokwe sabem bem que leitura fazer de cada uma das alternativas de interpretação daquele gestual.

As técnicas e os segredos inerentes às danças de mascarados estão contidos numa das áreas de conhecimento reveladas na mukanda pelo que, este saber é absolutamente vedado às mulheres, aspecto que nos poderia remeter para a problemática da organização de género nesta sociedade.

Assim se explica que dentro da máscara — cujo uso é interdito ao sexo feminino — um homem iniciado de estatuto secreto e identidade desconhecida, lhe dê a "alma" e a forma humana que a torna inteligível para o mundo terrestre.

Este desempenho masculino é, no entanto, aceite pelas mulheres cokwe que o reconhecem como uma homenagem ao seu papel primordial dentro da sociedade. Contudo, a actuação desses Akixi não as deve desapontar, o que pressupõe a obrigatoriedade de uma representação do modelo feminino correspondente às suas expectativas. Deste modo, é frequente verem-se estes bailarinos profissionais dançar junto das mulheres para com elas aprenderem os movimentos exactos embora, numa relação recíproca, essa máscara deva ser para as próprias mulheres o exemplo das regras e formas de comportamento social a seguir. Ao contrário do que acontece relativamente à quase totalidade dos mascarados, que as afugentam, as mulheres podem, portanto, aproximar-se e interagir com o Mukixi wa Mwana Pwo.

Apesar dos grandes desequilíbrios provocados na sociedade cokwe, pelo contexto de guerra vivido em Angola, os mascarados continuam a fazer-se presentes agora, em tempos de paz, para partilhar a sabedoria ancestral com as novas gerações.

Continuando a formar parte integral da visão que os Tucokwe têm do mundo, Mwana Pwo integra, na sua forma e na sua essência, o grupo dos Akixi que contribuem para a perpetuação das diligências sociais e culturais de transmissão de um conhecimento colectivo e para a negociação das grandes preocupações e aspirações humanas.

Validada apenas quando alguém a usa — pois só o binómio máscara-bailarino é portador dessas forças "sobrehumanas" —, Mwana Pwo pode ser apreciada numa perspectiva de riqueza e complexidade artísticas, mas sem nunca as dissociar da sua capacidade para articular novas ideias, normas e valores, ou seja, de intervir (modificar) na vida moral e espiritual dos indivíduos, enriquecendo, com o seu significado simbólico, o o curso da sua existência quotidiana.

Através dela se celebra a esposa, a irmã, a mãe.
Através dela se declara a autoridade da mulher na sociedade cokwe, talvez ainda numa remota homenagem à rainha Lweji.


Maio de 2004

Ana Clara Guerra Marques, coreógrafa angolana; fundadora e diretora artística da Companhia de Dança Contemporânea de Angola, in Mwana Pwo ou a representação feminina na hierarquia das máscaras Cokwe

NOTA — Na palavra Cokwe e suas derivadas, a letra c pronuncia-se aproximadamente tch: Tchokwe.

01 julho 2017

«O nosso grande capital são as pessoas»

O Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, Prof. Dr. Manuel Sobrinho Simões, durante a sua intervenção oficial no dia 10 de junho de 2017, na cidade do Porto (Foto: Presidência da República Portuguesa)


(...) É errado pensar numa raça portuguesa, como numa raça espanhola, francesa, ou outra.

Mas, se não há uma raça portuguesa, há um Povo com características genético-culturais sui generis (...)

Não há genes portugueses. O que os portugueses têm é uma mistura notável de genes com as mais variadas origens. Se há algo único, ou quase único, em nós, é essa mistura genética.

(...) Pelas leis da genética populacional deveríamos ser mais homogéneos, mais monótonos em termos genéticos que os outros povos europeus. E não somos.

Pelo contrário. Somos de uma extraordinária diversidade genética porque incorporámos, ao longo de séculos, judeus e berberes vindos de Espanha e do norte de África, porque nos misturámos com árabes, porque tivemos escravatura de povos da África subsariana no nosso país e nas colónias, com uma grande expressão e durante centenas de anos.

E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, com filhas.

É assim que se compreende que a população portuguesa tenha grandes percentagens de diversas linhagens genéticas, sobretudo de origem materna. Há diferenças regionais mas o que impressiona é a consistência com que temos muito mais mistura de genes que os nossos vizinhos.

Somos tão diferentes neste aspecto que há bastantes mais linhagens ameríndias, africanas e judias no Minho do que na Galiza.(...)

Estas são apenas algumas das palavras proferidas pelo notável cientista português Manuel Sobrinho Simões, durante o seu discurso proferido no dia 10 de junho de 2017, na cidade do Porto, na sua qualidade de Presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O discurso completo do Prof. Sobrinho Simões foi como segue.


Foi com muito gosto embora, valha a verdade, não sem algum receio que aceitei o convite do Senhor Presidente da República para presidir à Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas.

O gosto é ampliado pelo facto de este ano as Comemorações se realizarem no Porto e se estenderem ao Rio de Janeiro e a S. Paulo. Sou orgulhosamente portuense e muito apegado ao Brasil e às suas gentes.

Não resistindo à utilização de expressões consagradas, é notável como a decisão do Senhor Presidente da República se adapta a esta localização magnífica, na “Ocidental praia lusitana” “De onde houve nome Portugal”, a imaginar o Brasil lá ao longe.

Neste dia comemoramos os Portugueses estejam onde estiverem. Comemoramos um coletivo num dia que já foi o Dia da Raça. Felizmente abandonou-se essa designação. É errado pensar numa raça portuguesa, como numa raça espanhola, francesa, ou outra.

Mas, se não há uma raça portuguesa, há um Povo com características genético-culturais sui generis que somos nós, os Portugueses.

Não estou a sugerir que há genes portugueses. Não há. Existem doenças transmitidas por genes alterados que surgiram em portugueses e, depois, fruto da nossa diáspora, se espalharam pelo mundo.

Foi o que aconteceu com a doença dos pezinhos, identificada por Corino de Andrade, que é possível encontrar hoje no Japão, na Irlanda e em outros locais mais ou menos recônditos da Terra. A doença chegou a esses países no século XVI através de variadíssimos tipos de portugueses errantes, fossem jesuítas ou marinheiros da Póvoa de Varzim recrutados para a Armada Invencível de Filipe II de Espanha e naufragados perto das ilhas britânicas.

Foi o que aconteceu, também, com a doença de Machado Joseph, conhecida popularmente por doença do tropeção, iniciada na ilha das Flores, nos Açores e “levada” por emigrantes nos séculos XIX e XX para a América do Norte e o Brasil.

E, mais recentemente, com uma alteração genética causadora de cancro da mama hereditário que tendo surgido numa família portuguesa encontramos hoje não só em Portugal como também em França e noutros países.

É interessantíssimo verificar como a dispersão destas doenças transmitidas por alterações genéticas de compatriotas reproduzem os padrões das (e)migrações portuguesas.

Mas não são estes os genes a que me referia quando falei em características genéticas portuguesas. Estes não são genes portugueses – são genes humanos alterados que, por azar, ocorreram em portugueses e, depois, o nosso comportamento migrante espalhou pelo mundo.

Não há genes portugueses. O que os portugueses têm é uma mistura notável de genes com as mais variadas origens. Se há algo único, ou quase único, em nós, é essa mistura genética. E nada o faria prever se nos lembrarmos que o homem moderno, vindo da África, depois de ter chegado ao Médio Oriente se dirigiu à Oceânia e à Ásia e só mais tarde veio para Ocidente.

A Europa é uma península da Ásia. A Ibéria é a península na ponta da Europa. Nós, Portugal e Galiza, estamos no extremo mais ocidental dessa península, a ponto de haver uma Finisterra, lá em cima que, apesar do nome, não é tão ocidental como o nosso Cabo da Roca.

Pelas leis da genética populacional deveríamos ser mais homogéneos, mais monótonos em termos genéticos que os outros povos europeus. E não somos.

Pelo contrário. Somos de uma extraordinária diversidade genética porque incorporámos, ao longo de séculos, judeus e berberes vindos de Espanha e do norte de África, porque nos misturámos com árabes, porque tivemos escravatura de povos da África subsariana no nosso país e nas colónias, com uma grande expressão e durante centenas de anos.

E também porque fomos através do mar para tudo quanto era sítio na África, na Ásia e na América do Sul e de lá voltámos com filhos e, sobretudo, com filhas.

É assim que se compreende que a população portuguesa tenha grandes percentagens de diversas linhagens genéticas, sobretudo de origem materna. Há diferenças regionais mas o que impressiona é a consistência com que temos muito mais mistura de genes que os nossos vizinhos.

Somos tão diferentes neste aspecto que há bastantes mais linhagens ameríndias, africanas e judias no Minho do que na Galiza. Eu, por exemplo, e perdoe-se-me a personalização, tenho cerca de oito por cento de linhagens ameríndias e três por cento de linhagens africanas.

E o mesmo se passa em relação aos judeus sefarditas cuja influência em Portugal foi enorme. No Hospital de D. Lopo que precedeu o Hospital de Santo António, aqui no Porto, havia um quadro composto por um médico e um cirurgião (sorgião) que eram obrigatoriamente cristãos velhos e tomavam conta dos doentes. Não deveriam ser os mais competentes pois o primeiro Regulamento do hospital, publicado a 2 de Janeiro de 1593, estipula que “o Provedor chamará os outros médicos da cidade para juntas, ainda que não sejam cristãos velhos, quando surgir algum caso grave”. A necessidade fazia esquecer os preconceitos e, quem sabe, terá sido esta uma das razões para a excelência da medicina no Porto.

O ponto que estou a procurar salientar é que a incorporação de genes foi acompanhada pela incorporação das respetivas culturas, criando uma sociedade de gentes muito variadas, de comportamento bastante plástico, tolerante em termos religiosos, avessa aos extremismos pseudo-identitários que irrompem um pouco por todo o lado.

Uma sociedade que deveria entender, como poucas, o problema dos refugiados. Deveríamos ser capazes de integrar gentes que se vêem obrigadas a fugir de casa, comportando-nos como uma comunidade inclusiva e solidária. Uma comunidade que tem de perceber o valor sociocultural, económico e até demográfico da integração dos migrantes. Somos uma das sociedades com menos filhos do mundo.

A variedade genético-cultural que tenho vindo a acentuar encontrou um terreno propício para o seu desenvolvimento nos montes e vales de grande parte do território português, onde coexistem elementos mediterrânicos e atlânticos, na síntese de Orlando Ribeiro.

Tudo isto, mais a localização periférica, a história, a geografia, o clima, a religião… criou uma sociedade de elevadíssimo contexto, caracterizada muito mais pela importância dos laços de sangue – somos todos parentes uns dos outros – do que de propriedade. Continuamos, infelizmente, demasiado individualistas e ainda não somos uma sociedade de contrato. Lá chegaremos, espero.

Apesar de termos hoje ainda meio milhão de portugueses que se exprimem mal em termos de escrita – muitos deles riquíssimos de saber – apesar disso, dizia, temos dado passos de gigante na educação, na saúde, na ciência e na inovação.

Vale a pena lembrar que por ocasião do 25 de Abril tínhamos níveis de analfabetismo semelhantes aos da Suécia 100 anos antes. E que ainda há pouco tempo os velhos de Vale de Papas, na serra de Montemuro, usavam o verbo sentir como sinónimo de saber. “O senhor sabe como é o mar? Não senhor, isso eu não sinto…”.

Repito, o nosso grande capital são as pessoas. Em Lisboa, como na Serra de Montemuro… Avançámos muito na saúde, na ciência, na inovação, na educação, e em alguns destes domínios somos já competitivos a nível internacional.

Nos últimos tempos trabalhei com professores e alunos das escolas de Arouca, Serra da Arga e Lima, Famalicão e Monserrate, assim como do Politécnico de Bragança e da Universidade da Beira Interior e, em todos estes sítios, encontrei qualidade e vontade excecionais.

Foi propositadamente que citei instituições ditas periféricas, do interior do País. Sem pôr em causa a necessidade de apostarmos, a sério, na descentralização, penso que Portugal é demasiado pequeno para tolerar bairrismos de qualquer tipo.

Mesmo aqueles bairrismos que se escoram na ideia de que “o Porto é uma nação”. Não é, apesar de ser verdade que o Norte e o Porto continuam a ser um motor fundamental para o desenvolvimento do País.

A este propósito quero deixar uma nota de saudade. Tivemos este ano a perda de algumas personalidades ímpares, entre as quais Mário Soares, Daniel Serrão, Miguel Veiga, João Lobo Antunes. Todos portugueses de eleição e todos, também, quando não de solo ou de sangue, portuenses de coração.

E volto assim às pessoas. Precisamos de apostar nas pessoas e associar essa aposta à centralidade do trabalho e à sua dignificação.

E temos de ser exemplares, de cima para baixo, na organização social e na seleção das lideranças. O privilégio tem de ser acompanhado de responsabilidade.

Precisamos de vencer a fragmentação do minifúndio através de políticas que estimulem parcerias público-públicas e reforcem as instituições. Portugal precisa, cada vez mais, de instituições fortes como são as Forças Armadas e a Igreja. Instituições fortes que criem oportunidades, recompensem o mérito e potenciem a capacidade do saber fazer.

Temos também de continuar a apostar na educação, a todos os níveis, usando a sabedoria chinesa que diz que “quem quer ter colheitas no ano seguinte, semeia; quem quer resultados a dez anos, planta árvores; mas aqueles que apostam mesmo no futuro, a cem ou mil anos, o que fazem é ensinar, educar, formar”.

Graças a nós e às nossas circunstâncias, temos todos os ingredientes, dos genéticos e ambientais aos socioculturais e tecnológicos, para aproveitar, pela positiva, os tempos difíceis que se vivem na Europa e no mundo.

Os nossos netos não nos perdoarão se desperdiçarmos a oportunidade.

Usando a fórmula de João Bénard da Costa, já glosada por outros, “Muito obrigado ao Senhor Presidente da República por me ter convidado e a V. Exas. por me terem escutado”.